segunda-feira, 4 de junho de 2012

O ensino de geometria no ensino fundamental, de Maria da Conceição F. R. Fonseca ( e outras)


São várias autoras, quatro Marias e uma Mônica. Todas mestres ou doutoras em Matemática, todas envolvidas com o ensino superior dessa ciência e com a formação permanente de professores dessa disciplina. Todas preocupadas com o espaço que a geometria tem ocupado nas práticas escolares, mais voltadas para o cálculo, relegando a geometria em último plano.
Esse livro, escrito a dez mãos, resulta de um processo de formação e tem vários propósitos: narrar a trajetória do Projeto de Formação Permanente em Geometria para professores do ensino fundamental I, o Pró-matemática, realizado entre os professores da rede estadual de Minas Gerais das séries iniciais, atuar como instrumento de estudo na formação inicial e permanente de professores do primeiro ciclo, atuar como material de leitura e formação e apoio daqueles que atuam nas equipes de formação de professores nas secretarias estaduais e municipais do país.
O livro é composto das mesmas três perguntas e consequentemente três etapas/ capítulos do trabalho da formação dos professores. As formadoras optaram por um modelo de formação que respeitasse os profissionais da educação, sua experiência, competências e saberes. Por isso não partiram de verdades prontas, antes foram construindo com os professores uma concepção de ensino de geometria amparado na reflexão mobilizada por uma postura investigativa, de todos os participantes. 
A primeira pergunta, que mobilizou a primeira parte do trabalho foi: O que se ensina de geometria? Para respondê-la, os professores, divididos em grupos, foram registrando em cartazes os tópicos em geometria por eles trabalhados nos quatro anos iniciais do fundamental I. Após a apresentação, discussão e defesa do porquê de se ensinar determinados tópicos. Na etapa seguinte, ainda da primeira fase, passaram a analisar o que dizem os PCNs no que se refere ao ensino da geometria. Nova discussão. Na terceira parte, analisaram diferentes livros didáticos trabalhados na rede: em que se assemelhavam em que se distanciavam do que é pedido pelo documento federal.  Também analisaram os anais do II Encontro Nacional de Ensino de Matemática. Neles, viram como a pesquisa sobre a geometria e o ensino dela, bem como a pesquisa sobre a informática como ferramenta para o ensino da matemática têm estado presentes nos meios acadêmicos, sem que, contudo, tais informações cheguem aos professores e à escola básica. Por último, retomaram suas listas iniciais e ao observá-las à luz dos novos saberes adquiridos, foram encontrando incoerências e lacunas no conteúdo e nas metodologias, não condizentes com as mais recentes tendências do ensino de matemática.
O segundo capítulo tratou da segunda pergunta: Quais os conhecimentos em geometria dos professores? Para tanto, as formadoras oportunizaram a discussão das figuras de linguagem portadoras de vocabulário matemático, pedindo aos professores que, também em grupos, discutissem os sentidos para os termos geométricos como círculo vicioso, triângulo amoroso, pessoa quadrada, sociedade piramidal, ver sob outro prisma, aparar as arestas, personagem plano, sair pela tangente. Nos momento de socialização coletiva dos significados dados pelos grupos, as formadoras atuaram ampliando os conceitos dos participantes: o círculo como uma curva fechada de pontos notáveis, porque todos possuem a mesma distância do centro; o triângulo é qualquer polígono de três lados e não apenas os isósceles e os eqüiláteros; pirâmides são sólidos geométricos e não apenas os monumentos egípcios; ver sob outro prisma implica também em ter uma visão distorcida da realidade e não apenas ver sob outro ponto etc.
Nesta segunda fase da formação, os professores foram instados a observar e registrar (desenho) a presença das figuras geométricas nos ambientes. Esse trabalho os fez perceber a dificuldade que enfrentaram ao desenhar, já que frutos de uma educação que pouco valor dá aos momentos de desenho. Neste momento, refletiram sobre o porquê do ensino da geometria, que visa, entre outros, a percepção espacial e estética (dimensão formativa) e a resolução de problemas – formais ou não- e o preparo para o trabalho (dimensão utilitária); refletiram também sobre o espaço que o desenho tem recebido na sala de aula.
Na terceira fase da formação, a pergunta mobilizadora foi: Por que se ensina geometria? Nesta etapa, os grupos de professores resolveram problemas relacionados a medidas e grandezas, problemas do cotidiano, como por exemplo, decidir se um espaço comporta uma piscina de 2000 litros ou duas de 1000 (aqui aprenderam a distinguir volume de capacidade), se a piscina retangular é preferível à redonda, tiveram de discutir qual a melhor opção: azulejar ou pintar com tinta impermeável as paredes de um banheiro. Essas questões tiveram por objetivo exemplificar como os saberes geométricos são necessários a todos, não importando as opções profissionais. Problematizaram o conceito comum entre eles, de que apenas os que se dirigirem a profissões que requeiram conhecimentos geométricos devam ter acesso ao seu ensino.
O livro e o trabalho nele relatado é uma valiosa contribuição para os professores do ensino fundamental I, que pouco ou nenhum contato tiveram com a geometria, seja pelo ensino que receberam quando criança ou jovens, seja por que fizeram Magistério ou Pedagogia, ambos voltadas para metodologias, legislação educacional, história da pedagogia e teorias sobre aprendizagem ou porque, as professoras, dedicadas ao alfabetizar das crianças, deixam a matemática em segundo plano.

domingo, 3 de junho de 2012

Como um romance, Daniel Pennac


Este é um livro escrito por um professor que aprendeu a amar os livros com outros professores, a despeito da incapacidade da escola de manter  o brilho natural que o texto literário possui. É fato que as práticas escolares esvaziam o texto de toda a sua magia e a capacidade de despertar nas crianças e jovens a curiosidade por ele. Tudo porque na escola ler se torna um dever, “Você tem que ler”, é a frase corrente entre professores da língua materna e dos pais, todos preocupados em fazer com que a infância e a juventude adquiram a bagagem cultural necessária ao sucesso neste mundo mais facilmente decifrável àquele que domina a linguagem escrita: saber ler é então fundamental para o desenvolvimento do cognitivo, do potencial criativo, da capacidade imaginativa e avaliativa( ou criticidade), da solução de problemas, para citar apenas alguns dos benefícios do contato íntimo, intenso e progressivo com a palavra escrita.
Mas todos esses argumentos não funcionam com a criança e o adolescente. Eles não estão preocupados com o futuro, o que os atrai na literatura é a capacidade que ela tem de fazer com que experienciem intensamente das emoções já conhecidas e outras insuspeitas a abrigadas em seus íntimos.  Crianças e jovens são mais emocionais que racionais. Adoram histórias, gostam de se projetar para mundos outros, gostam de se identificar com personagens possuidores de poderes diversos daqueles presentes no cotidiano. Não é à-toa que admiram o parente ou professor que difere dos seres humanos comuns... No entanto, professores e escola esquecem-se desses fatos e insistem no “têm que ler” e ao escolherem livros que pouco têm a ver com as características e gostos infantojuvenis, ao estabelecerem trabalhos, provas, fichas de leitura, acabam por colherem muito poucos leitores apaixonados pelo livro.
Essa é uma das teses que o professor e escritor Daniel Pennac defende em seu livro Como um romance. E porque sabe que há nos professores uma certa aversão por textos áridos, carregados de carga teórica e fria, tão próprios aos textos científicos, optou por um estilo de escrita muito próximo ao do literário, o que lhe conferiu não só coerência como também sucesso ao tratar da didática da leitura de textos literários em sala de aula.
Começa relatando um evento corrente em todos os lares e escolas ocidentais: pais e professores que no início da infância e escolarização da criança leem para elas, mas que, mal essas começam a decifrar a palavra escrita, deixam-nos à própria sorte com o livros, esquecidos das dificuldades e da lentidão presentes no domínio das palavras, frase e períodos, que possuem graus de dificuldade de compreensão devido à grafia, sentidos, contextos, vocabulários entre outros. Quando o pai, mãe ou a professora liam, dava-se por encanto a magia, oriundos dos tons de voz, expressões faciais, gestos... Então como num passe de mágica, mal iniciada a leitura, as cortinas do imaginário infantil se abriam e na tela da mente era possível vivenciar o medo, a tensão, a alegria a vitória dos personagens preferidos. Mas depois de algum tempo, a hora da estória na escola ou em casa são substituídos pela hora da lição. E a leitura deixa de ser encanto para ser obrigação. “Lê pra mim?“ “Não você já sabe ler”. Depois de algumas tentativas, repletas de gaguejos e tropeços, seguidos de cansaço e frustração, o livro é deixado de lado.
Com o jovem é quase o mesmo, diz o autor. Ele tem que ler tantas páginas até o dia tal para a prova do dia tal. Ele se tranca no quarto para ler. O livro tem muitas páginas e nenhuma ilustração. “Tenho que ler” Horas depois, só umas poucas páginas lidas, vem com o cansaço a constatação: “Não vou conseguir ler tudo isso a tempo.”
Como superar esse problema? Como cativar novos leitores? Para Daniel, é simples: basta ler para eles, não importa se criança ou jovens, ler para eles em voz alta, até que curiosos para saber quais os próximos eventos da trama peguem no livro e se enveredem por suas páginas, caminhem entre os livros sozinhos.
Para Daniel, a leitura é uma prática social que não se dá pela obrigação, mas pela necessidade, gosto ou curiosidade. E inseri-la na vida dos infantes e jovens por vieses que não esses é o mesmo que inviabilizar o surgimento de novos leitores. Sendo assim, a escolha do título a ser lido para eles é de vital importância. Escolher a dedo o que será lido, para que queiram o livro como quem quer água quando com sede. Acha isso impossível? Títulos como A bruxa Salomé, O Mago, o Horrível e o livro de feitiçaria, O Menino Maluquinho (para crianças), para citar apenas alguns ou Os pequenos guardiões, A hora da vingança, os diários, Comédias para se ler na escola (para jovens), costumam agradar em cheio.
Oferecer um livro ou a leitura dele como quem oferece um prato especial num almoço ou jantar de uma data especial a um candidato ilustre, essa a proposta de Como um romance. Mas numa escola projetada para as massas, que não considera a diversidade e a individualidade de cada ser que recebe, e que muitas vezes faz o mesmo com seus profissionais, é quase uma missão impossível. Só uns poucos bravos, a despeito de toda a engrenagem, cumprem-na.

Hugo Cabret


Ele não acreditou no que viu. Jovens do sétimo ano do fundamental II, com cerca de 13 anos, sentados lado a lado, gastando seus vinte minutos de intervalo lendo. Não, não são estudantes das escolas de elite de São Paulo, aquelas sempre bem colocadas nas avaliações externas promovidas pelo MEC, estados ou municípios brasileiros. São jovens de baixa renda, alguns tendo como casa um único cômodo.
Que livro teria feito essa revolução? Seu nome: A invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick, adquirido pelo Programa Apoio ao Saber, promovido pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, que tem como propósito distribuir livros de excelente qualidade aos jovens do ensino fundamental e Médio.
Há quem critique o Programa, argumentando que os jovens não sabem dar valor às obras selecionadas, compradas e distribuídas. Não é o caso desse livro, do seu autor e da editora, que apostaram num formato de obra inusitado. São 534 páginas em preto e branco, recheadas de ilustrações a lápis. Quanto tempo terá levado o autor para elaborar cada imagem, muitas delas em homenagem ao cinema e a seus inventores? Seja qual tenha sido o percurso percorrido pelos idealizadores do livro valeu a pena, pois nesta mesma escola as turmas não agraciadas com a obra foram reivindica-la com a coordenadora pedagógica. O que os encantou, as imagens ou o texto?
São muitas as razões que levam diferentes pessoas a lerem um mesmo livro. A sugestão de um amigo, o apelo publicitário, a curiosidade. O professor citado quis saber o que havia no livro para causar tamanho alvoroço e o pegou para ler. Uma outra professora, ao ouvi-lo falar do episódio procurou por um exemplar e quando viu quem o havia traduzido ficou ainda mais curiosa da obra, ela que é professora de língua portuguesa  e admiradora dos textos desse, que muito tem contribuído com seus livros e estudos, ao desmascarar o preconceito lingüístico, um dos trunfos dos que se mantêm no poder.
A estória de Hugo acontece na Paris de Victor Hugo, mas quase não há referência à beleza da cidade nem a seu grande homônimo. Tal como o personagem mais conhecido do mestre da escrita francesa, o menino Hugo vive entre muros e torres, não os de uma igreja, mas os de uma estação de trem. Ele mantém os relógios em funcionamento, o corcunda tocava os sinos... Hugo é órfão, do pai só lhe restou um autômato e o menino acredita que se conseguir fazer com que ele funcione, receberá uma última mensagem do pai. É difícil para o garoto estar sozinho no mundo. Ao roubar peças de uma loja de brinquedos, acaba por se envolver nos problemas de uma família que posteriormente o adotará.
O texto, que tem um certo suspense e ritmo, é quase que totalmente ofuscado pelas  ilustrações que fazem muito mais que ilustrar a narrativa. É difícil saber se foi proposital, já que texto e imagens estão intimamente relacionados, ora um ora outro levando a narrativa à frente. A descrição textual teria sido substituída pelas imagens? É quase certo que sim, pois o leitor não se dá ao trabalho de imaginar lugares e cenas, já que elas estão distribuídas pelas páginas do livro. É uma obra bonita de se ver, mas que não deixa impressões mais profundas no leitor, não para aqueles acostumados a textos que exigem mais de sua imaginação e intelecto. Mas esse livro não é para esses, é para os jovens, tão próximos da infância ainda e é bem sabido como as ilustrações encantam não apenas a crianças, mas a quase todos os que amam as imagens.

Sobre Fedro


Impossível encarar da mesma maneira a tarefa da escrita de um texto, a incumbência de proferir uma palestra ou ministrar aulas depois da leitura de Fedro, um dos discursos mais respeitados de Platão. Conhecido pela definição que traz do amor, é um verdadeiro manual de sobrevivência, de leitura imprescindível para todo jovem e adulto. Embora se trate de um texto argumentativo, que exige uma leitura mais atenta e o desenvolvimento de competências leitoras mais complexas, seu grau de dificuldade não impede que se eleja ao menos trechos para leitura e reflexão em sala de aula, pelas definições que traz não só do amor,mas também da arte da oratória e da escrita.
Sócrates, o orador do texto, tem a postura do homem honrado, que dá o devido valor e importância à elaboração do discurso, seja escrito ou falado. Após ouvir do jovem amigo a leitura de um discurso sobre o amor proferido num banquete por Lísias, um sofista, Sócrates conclui que não percebera nada que distinguisse aquele discurso de outros já proferidos por outros sofistas, superficiais e incapazes de contribuir para uma conceituação mais elaborada por parte dos ouvintes dos temas tratados. Para eles, os sofistas (assemelhados a alguns oradores, palestrantes, políticos e advogados de hoje em dia) não estavam interessados na verdade e sim na obtenção de favores, reconhecimento e riquezas, não hesitando em manipular as palavras e os argumentos em seu próprio favor.
Diante desse posicionamento, Fedro quer saber do amigo se este tinha a dizer algo superior ao dito por Lísias, para quem era preferível prestar favores ao não enamorado que ao enamorado.
É quando, após pedir pela assistência dos deuses, Sócrates inicia uma argumentação cuja estrutura é digna de atenção de todos os que aspiram ou necessitam aprender a escrever e proferir textos argumentativos. Primeiro aponta uma das falhas do discurso do sofista: não definiu o objeto do discurso, limitando por emitir uma opinião e repeti-las por várias vezes,
O que tornou o texto redundante. Pra Sócrates, faltou a definição do tema, no caso o amor. Começa então por dizer que o amor é desejo pelo belo. Mas como os não enamorados também desejam, surge o problema: como saber se o que se sente ou o que dizem sentir por você é amor?
Sócrates responde a questão situando o desejo existente em todo ser humano em dois impulsos: o desejo inato e o desejo guiado pela opinião que visa o que é melhor,ou seja, a temperança e a intemperança.
Quem ama filtra seus desejos, doma seus instintos, é capaz de se afastar se perceber o que sente corrompe a si e ao ser amado. Esse amor não é egoísta nem possessivo. É o amor ideal, já que não visa apenas o seu interesse, nem vê o outro como um objeto que lhe pertença.
É interessante notar como Sócrates retoma o mesmo argumento valendo-se desta vez da alegoria da carroça. Nela, a alma é dividida em três aspectos: o cocheiro, e dois cavalos alados, um é belo e bom, o outro é de raça ruim, sendo assim, conduzir nosso carro (a vida) é ofício difícil e penoso. A alma participa do divino, mas um dos cavalos se arremessa para baixo... É o que seria esse baixo? O sexo pelo sexo e suas conseqüências, a glutonaria, o alcoolismo, a ira, a falta de princípios e suas consequências para a sociedade.
Quem lê Fedro percebe de que se trata o amor platônico: é capaz de prescindir do sexo, é capaz de abrir mão da união como amado se concluir que essa não lhe convém. É um amor comedido, regulado pelo autocontrole, não é impulsivo nem inconseqüente, nem se perde em meio ao calor da atração.
Quantos são capazes de tal amor? Para se amar assim, somente quem capaz de ficar sozinho, se está na relação é para partilhar, não visa o proveito próprio.
              A origem da escrita e o questionamento dos seus reais benefícios para a memória, a necessidade da apreensão da verdade para só depois se dedicar ao discurso,  também são tratados no discurso. E sendo a verdade um dos temas centrais da filosofia, quem pouco dela sabe, se levarmos em consideração o que diz Sócrates, pouco serviço presta a quem o lê ou escuta. Nos dias de hoje, qual a pertinência da filosofia. Para Platão, toda possível.
Imprescindível para quem quer saber o que ´pe o amor, para quem quer aprender a escrever, para quem quer aprender a pensar. Da Martin Claret

sobre Quando Nietzsche chorou


A receita do doutor Irvin D. Yalom funciona.  Pelo menos nos dois romances biográficos que escreveu: Quando Nietzsche chorou e A cura de Shopenhauer, ambos alcançaram ampla vendagem. São livros que funcionam por várias razões: a proposta de apresentar ao público dois filósofos cujas obras, de inegável valor pelo questionamento agudo do pensamento e dos modos de ser da sociedade da época em que viveram, são pouco lidos e conhecidos pelo público em leigo.
Outro motivo é o caráter terapêutico dos textos: em ambas as narrativas, na primeira o próprio Nietzsche e na segunda um especialista em Shopenhauer, passam por um processo de cura pelo diálogo. Ao longo das narrativas vamos conhecendo a intimidade, as fragilidades, as características do pensamento de cada um, os problemas com a família, a vida solitária, as polêmicas suscitadas pelas suas obras e posicionamentos.
A escrita de ambos é boa, mas a do primeiro é apaixonante, enreda o leitor até as últimas páginas. O doutor Irvin conta com uma equipe de pesquisadores que o auxilia na escritura de seus livros, pesquisadores, estudantes, especialistas. Em quando Nietzsche chorou, ele apresenta uma ampla lista de colaboradores. É nteressante a escolha dos pacientes tratados nos livros. Em Quando Nietzsche... não é o filósofo, mas a única mulher  com quem ele cogitou estabelecer um relacionamento que procura o doutor Bauer, um do pais da psicanálise para pedir-lhe que trate de Nietzsche, a fim de cura-lo de uma depressão suicida.. A principio o médico reluta, mas acaba convencido, um pouco pela beleza da mulher, outro tanto pela singularidade do paciente.
É claro que Nietzsche se recusa a tratar-se, embora já tivesse passado por vários tratamentos. Suas justificativas fazem supor que ele tivesse acabado por aceitar sua condição de homem solitário, sábio, doente e pobre. Essa aceitação não é em nada a de um fraco, é a capacidade de se ver em plenitude, naquilo que o distingue entre os demais e naquilo que o nivela.
A incapacidade de relacionar-se, a hostilidade com que os acadêmicos e pensadores receberam as obras de Nietzsche e de Shopenhauer causaram neles profundas feridas. O primeiro chegou a ter crises de enxaqueca e apatia, que o abatiam por dias.
Quando Nietzsche chorou é recheado de diálogos entre o doutor Bauer e o filósofo, entre o doutor e Freud. São conversas de uma riqueza filosófica e ao mesmo tempo de uma fluidez e adequação (porque tratam das mesmas questões do homem comum: as escolhas, o amor, as ambições, a ética) que tornam o livro imprescindível para qualquer leitor.
Outro mérito do livro é a tese de que o terapeuta também se cura quando trata. Ele também tem seus demônios e como qualquer outro mortal precisa da relação com o outro. O terapeuta não está acima do paciente porque também humano, aquilo que o distingue dos demais, o conhecimento acumulado não lhe é suficiente para autocurar-se. O que se tem então é a troca: esse outro que o terapeuta auxilia a curar-se é espelho e referência com que o curador se vê. Se todos os terapeutas comungam com essa tese é algo a se saber Mas é com certeza uma das que o Doutor Irvin Yalom acalenta. E que compartilha com seus leitores. Há uma série na tevê paga Chamada Em terapia, na qual vemos como é árduo o ofício do terapeuta, sempre às voltas com as mais densas doenças da mente e da emoção, dele e de seus pacientes. Após cada episódio é impossível não suspirar por ele e pelos seus pacientes. Terá sido a criação dessa série influenciada pelo sucesso dos livros do doutor Irvin Yalom. É quase certo que sim.

O ensino da leitura e da escrita de textos jornalísticos


Como ensinar aos estudantes do ensino fundamental e Médio a escrever textos informativos?Uma boa estratégia é familiarizá-los com esse gênero textual, presente em jornais e revistas e familiarizar significa lê-los e reescrevê-los. Para quê? Pode não parecer, mas a leitura e a escrita de textos desse gênero preparam os estudantes para a pesquisa.
Os educadores costumam separar os estudantes em duas categorias: aqueles potencialmente destinados à carreira acadêmica e aqueles que precisam entrar no mercado de trabalho o quanto antes, seja por não se destacarem nos estudos, seja por questões econômicas.
O que passa despercebido aos educadores que assim classificam seus estudantes é que a pesquisa é  praticada cotidianamente. Pesquisamos quando vamos às compras (preço, qualidade, descontos). Pesquisamos quando procuramos emprego, quando escolhemos o que pedir no restaurante, para onde ir nas férias, como reequilibrar um orçamento que está no vermelho, com quem e quando ficar, namorar, casar... A pesquisa é um fazer profundamente humano e quanto maior nossa habilidade em realizá-la, maior sucesso teremos, não importando o caminho profissional  escolhido, pois quem sabe prever passos vive melhor, porque capaz de respeitar um orçamento, planejar para ter filhos, comprar uma casa, planejar a aposentadoria.
Nesse aspecto e tendo em foco as demandas dos novos tempos, é urgente ir desenvolvendo nos ensinantes as competências inerentes à pesquisa. E quais seriam elas? E em que medida podem ser detectadas nos textos jornalísticos?
Os profissionais que elaboram esses textos partem sempre de uma pergunta sobre um determinado tema, frequentemente digno de atenção, de relevância social. Não é este o mesmo procedimento de um pesquisador? Para respondê-la saem a campo, colhendo informações. Leem livros, artigos, visitam o local onde ocorreu o fato sobre o qual escreverão, entrevistam testemunhas, vítimas, investigadores, especialistas... E anotam, gravam, fotografam. Feita a coleta das informações passam a compará-las no que se assemelham e no que diferem, distinguem qual informação merece ser aprofundada, descartada, reformulada.
O texto final, elaborado pelo jornalista é sempre escrito com base no que ele descobriu sobre o assunto pesquisado. A diferença deste texto para o acadêmico, que é discursivo (ou seja defende uma ideia) é que aquele não demanda a mesma quantidade de  tempo e de recursos que este, já que têm finalidades diversas. O texto jornalístico informa, o texto argumentativo defende uma ideia, e no caso da monografia, dissertação ou tese, produz conhecimento novo. Mas é inegável o fato de que compartilham o mesmo percurso inicial (o da coleta de informações) e as etapas da feitura do texto.
Fazer saber aos ensinantes desta etapa da confecção do texto jornalístico, auxiliá-los na identificação de sua estrutura( título, primeiro parágrafo com informações gerais em torno do esquema o que, quem, onde, como, porque, quando e seu desenvolvimento nos parágrafos seguintes, sendo o último reservado à conclusão do texto) tem uma relevância ímpar no ensino da linguagem e suas tecnologias porque rica em conteúdos: além dos já citados, ambienta-os na leitura e confecção de textos em terceira pessoa, aproxima-os dos acontecimentos mais globais, referentes ao Brasil e ao Mundo: comportamento, economia, conflitos, tecnologia, cultura.
Um aspecto a ser destacado é como despertar o interesse das turmas para esses conteúdos. Um caminho possível é ir mapeando com eles, em conversas iniciais, quais os planos para o futuro, qual o papel da leitura, da escrita e da pesquisa na concretização desses planos, bem como quais fatos ou temas têm maior atratativo entre eles. Com essa informações em mãos é possível ir selecionando o que ler com eles, bem como quais relações entre os assuntos dos temas escolhidos e os que chamam a atenção deles. 

Este é um trabalho árduo, que exige, escuta ativa, pesquisa, planejamento e trabalho coletivo. E uma vez que a maioria das crianças e jovens em idade escolar estão nas mãos de professores que trabalham em jornadas de 40, 60 horas semanais em sala de aula, com pouco tempo para ler, refletir e planejar estratégias, é pouco provável que realizem um trabalho permanente junto  aos educandos tendo como foco o texto jornalístico. O que é uma pena. Uma lei federal recém-criada, que prevê, além do piso nacional, a destinação de um tempo fixo da jornada do trabalho do professor destinado ao preparo das aulas e ao estudo pode em muito ser benéfico, mas só se de fato esse tempo for utilizado de forma ética e responsável. Se não, a educação brasileira continuará na mesma, o que é inviável nesse tempo de ascensão dos países emergentes, dentre eles o Brasil. 

Perfil, do Zeca balero


No Cd a mesma proposta do seu CD de estréia Vó imbolá, no qual, como sugere o título, apresenta um trabalho que dialoga ou é fruto das mais diversas e ricas manifestações musicais presentes em nosso país: tem samba, tem erudição, tem rap, tem canções de amor, tem canções de protesto...
Mas se no primeiro a participação dos que com ele compartilham o seu jeito de conceber música é mais sutil, quase que uma segunda voz, só perceptível aos de ouvidos apurados pela experiência musical, o segundo tem a participação mais evidenciada. Zeca canta com Gall Costa, com Zeca Pagodinho, com Chico César, com Zé Ramalho, com Faces do Subúrbio e Rita Ribeiro.
É este o perfil do Zeca: jamais sozinho sempre acompanhado daqueles que, como ele, têm na música mais que fonte de renda, especo de expressão, de criação. E como resultado dessa comunhão de vozes, estilos e propostas têm-se quinze canções, cada uma com a sua beleza. Em Proibida pra mim a voz de um jovem que se vê ainda despojado da experiência e de conhecimento, mas cheio de coragem em face do desejado.
Em Vapor barato temos um eco de vozes a cantar o Brasil de ontem que protestava de modo cifrado porque clandestino e o de hoje que, livre da ditadura resgata na mesma canção, recentemente interpretada pelo Rappa, numa versão dançante, sua carga romântica. Gal, exilados, Zeca, Rappa, enamorados. A mesma canção, tantas vozes.
Em Babylon o hino aos prazeres em resposta ao vazio existencial ou financeiro por muitos compartilhado. Quantos o cantam sem ter consciência dos riscos por trás do hedonismo?
Piercing é polêmica porque questiona os novos sentidos para a dor, atribuídos a ela por quem não sabe do que realmente ela representa. “Tire o seu piercing do caminho que eu quero passar cm a minha dor” Para que o piercing, por que se ferir, se mutilar? Em que medida a ostentação dele – um contraste interessante com os dedos cheios de anéis do general de Vapor barato – confere status, beleza? O que é a dor? Qual o papel dela se tão presente na trajetória humana? Subjuga ou liberta? Ensina ou aleija? Ruína ou cinzas da fênix?
Piercing é também cheia de metáforas, característica dos ditos populares:

“O homem inventou a roda, Deus o freio;
O feio inventou a moda e toda moda amou o feio;
Satanás condecorado na tevê tem um programa;
Aqui vive-se à míngua, não tenho papas na língua;
Não trago Paris na alma, minha pátria é minha rima;
Eu perdi no paraíso, mas ganhei inteligência;
O presente não devolve o troco do passado;
Tome logo um engov pra curar sua ressaca da modernidade, matilha de cães raivosos.
Lugar de ser feliz não é supermercado;
Revólver que ninguém usa não dispara balas;
Pra chegar na minha cama tem que passar pela sala;
Todo mundo quer subir na vida
Se subir espere a descida
Se na hora H o elevador parar ... Sempre vai haver uma escada de serviço;
Tire o seu piercing do caminho que eu quero passar
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar;
Mente desperta que desperta a de quem o escuta. É esse o perfil do Zeca Baleiro. Criativo, crítico, fraterno. Face de muitas faces. Made in Bazil.