terça-feira, 3 de abril de 2012

poeminhas sem data


Tributo a Manoel de Barros I

Disfunção da alma: não vê o de lá
Não vê o de dentro
Nem é vista pelo de fora.

Glória da alma: impor guerra
Ao que vem interno
Que aleija, limita o olhar
Obstaculiza a chegança
do Sol
Por entre as pétalas dos sete véus.



Tributo a Manoel de Barros II


Ser chão, para que em mim as árvores cresçam;
Ser casa, para que em mim as famílias floresçam
Ser livro, para que em mim os poetas enlouqueçam;
Ser céu, para que em mim as estrelas apareçam;
ser mulher, para que em mim o meu Amor se aqueça;
Ser vida, para que em mim Deus rejuvenesça.
II
Ser árvore para ter gorjeios,
Ser mar para ter conchas.
III
Dona Adelina Cuê diz que o abandono protege.
Eu digo que o abandono limita.
IV
Um Sol inteiro no corpo do Mar.












Presença

De amor de poesia  e de rosas
É com que faço o meu destino
Não sei fazer conta
Não tenho poupança nem nexo
Tenho por teto o céu
Por veste o Sol
E semeio caridade.
Eu dou o que tenho
o olhar a presença a fé
E aceito o que me dão:
amor poesia e rosas
E sigo distraído.










Peregrino coração

E chega sorrateira
a tristeza.
Não muito gorda
nem viril
que já sei enxergar.
E se a observo
esgueirar-se por entre meu peito e mente
ela não me pega de todo.

Eu a vejo
movendo-se nos entremeios
do meu eu, sofrido coração
até pouco entusiasta,
mensageiro da esperança.
Agora, observador calado,
atento a cada movimento
do pião.
E participa
meio que de banda,
na esquina da desilusão.

E desta posição
que não mata
nem vivifica
dispo-me de qualquer expectativa
e sigo.




Leitura

Se o texto é do tamanho da vida
E a vontade de ler é quase nada,
Titubeia não:
Larga!
Peça a alguém que o fisgue
Com trechos e sentidos instigantes,
Para só então retornar.
Porque ler é perguntar
Pela faca que fere
E pela erva que cura.


assembleia das bruxas- poema narrativo



(Dedico Assembleia das Bruxas a todas as mulheres à frente do seu tempo.)

No alto de uma montanha
banhada pelo cheio da lua
quando o orvalho banha a noite
e o silêncio vela o sono de quem durante o dia semeou
lá,  onde nossos olhos não alcançam
chegam do céu, da terra, do mar e do ar
bruxas de todos os tipos
que se pode imaginar
novas e anciãs
humildes e ricas
rabugentas e alegres
e todas misteriosas
sob seus mantos negros
e quengos encapuzados.

Capas, mantos e vassouras
sobre rochas  e arbustos
tratem de descansar,
que as bruxas se reúnem
num círculo exemplar
é a Assembleia das Bruxas
deliberar vão agora
ouçamos, atentos, o que têm a falar.

De dentro da roda,
uma bruxa anciâ
dá um passo à frente
e a sessão iniciar.
Seu rosto enrugado
inspira respeito
em todas do clã.

"Nós, as guardiãs de tantos segredos,
as que fazem surgir o amor, a alegria
aqui nos reunimos para proclamar,
na mais pura e ousada, franca rebeldia
que todos escutem
queremos alto bradar:
O dia da bruxa começa a raiar!"

Erguendo o cajado
que firme sustenta,
o corpo encurvado
pelo peso dos anos,
a matriarca prossegue:

" Nós somos as bruxas de hoje e de outrora,
queremos tomar o que é nosso sem demora.
Por que nos confinam em céus sem luar?
No azul do firmamento, sob o sol deslizar
entre pipas e nuvens é nosso desejo.
E ai de quem ouse nos cantos murmurar:
'Tanta bruxa solta vai trazer azar!'
Gargalhar à revelia é nosso direito,
brincar entre as nuvens e formato lhes dar
e pelo infinito dos céus farrear,
sem nenhum  obstáculo."

E bailando, ensaiando seu grito guerreiro
todas as feiticeiras começam a entoar :
"O dia da bruxa já está a raiar!
Tremam os que insistem em nos torturar!"

A bruxa-mãe continua,
batendo forte o cajado no chão:
" A fogueira que surge dos nossos sussurros,
é porque desejamos os pés aquecer.
Mas há sempre quem queira nos difamar,
espalhando entre o povo:
'Elas vão nos assar!"

Enquanto retorna ao seu lugar,
a bruxa do chão faz o fogo brotar
e toda a Assembleia passa a iluminar.

Uma mão se ergue, tão pálida e fria!
Outro ser mágico quer ter a palavra;
coberta de negro, de puro cetim
a face é triste, a pele macia,
é de fina linhagem
dizem o ouro do anel.

" Sou bruxa da cidade,
minha pele é lisa e bela.
Gosto do luxo e da música;
aprecio aquarela.
O que tem os meus chifres,
os olhos vermelhos, o meu narigão
e uma voz poderosa
que é feito trovão?
Que até faz tremer
o mais intrépido varão?
De que valem o poder
o perfume, o vestido,
se até o príncipe sapo desvia o olhar
se percebe no baile, meu corpo  bailar?"

E o coro das bruxas passa a entoar:
"Nos nobres salões, nossas saias rodar,
das festas em castelos
nunca nos fartar!
Mas de nada adianta
nossa empolgação,
pois o rei sempre 'esquece' de nos convidar!"

A bruxa do campo quer se curar
da dor que a persegue da manhã ao anoitecer.
De vestido rodado e botas pontudas,
folhas perfumadas a enfeitar seus cabelos.
Suas vestes, suas carnes, têm cheiro de alecrim;
traz nas mãos um cálice que oferta à  roda,
é nectar de flores que a todas desperta!
E em silêncio, e em alerta
ouvem a bruxa:
" Minha morada é uma cabana
junto a prados e regatos.
Eu conheço a língua do vento
e da Natureza os mistérios,
seu poder sem igual.
Não me cansa atender
quem à minha porta bater,
a quem lá for buscar
um chazinho, um conselho,
a mais rara erva
sou capaz de buscar
rochedos e penhascos, atrevo-me a escalar,
entre fendas me arrisco,
na escura gruta vou depressa,
procurar pela planta que pode curar
febres, profundas feridas,
vermes no ventre, a alta pressão.
Sei também que a babosa trata queimaduras de radiação.
Mas se estou entretida
nas manhãs de inverno,
na estrada a colher ervas para cozer
e passa por mim
criança, homem ou velho,
tratam de se apressar
não me dizem sequer um olá
um bom-dia, ou até já..."

E o coro das bruxas se anima a cantar:
" Queremos nas feiras,
livres circular!
Olhos frios temerosos,
não ter que enfrentar!"

E a bruxa do campo encerra  a denúncia
"Se vou o mercado a fim de comprar
ervas variadas, cascas, sementes
mulheres e crianças começam a debandar
e o padre aflito se põe a rezar"

E num coro perfeito, elas continuam:
"Nós podemos fazer todo o solo tremer,
podemos transformar bicho, planta, lugar
e o fogo gerar da mais úmida madeira.
Tal poder, no entanto, nunca foi gratuito,
temos antiga incumbência
de servir, defender a Mãe- Natureza
do mais torpe avaro
daquele que explora, sem nenhuma vergonha
e enche seus bolsos, espalhando desertos,
sem fazer cerimônia!
Quase ninguém percebe,
somos nós quem semeia
cada planta que brota
nos solos machucados
pelos passos humanos.
Somos as operárias da amada Mãe-Terra;
guardamos com zelo os segredos antigos
do amor, da riqueza e da cura bem-vindos."

Salta de dentro da roda
a bruxa selvagem,
até entre irmãs
é preciso coragem,
pois essa bruxona não é dada à etiqueta!
Tem peles por vestes,
a mostrar suas tetas...
"Sou bruxa do mato,
gosto de correr,
nas folhas caídas,
meu corpo envolver.
Eu sou velha maga,
eu converso com as flores
eu teço com as aranhas,
e acompanho o percurso
das diligentes formigas,
dos seres humanos, jamais inimiga.
Sou eu quem celebra o retorno ao pó
dos pequeninos que partem e que ninguém tem dó.
Não importa o tamanho,
vida breve ou extensa,
não há quem não deixe
sua marca impressa.
Da vida uma lei,
ninguém pode fugir:
todos contribuem,
não há como excluir!
Pra que a vida na Terra
nunca deixe de existir!
Mas saibam, amigas, que livre não sou;
na cachoeira nem sempre posso me banhar,
se percebo ao longe o passo humano,
no mato apresso a me embrenhar.
Não digam que é cisma,
que sou bicho do mato,
já senti sobre a pele
de um humano, o olhar assustado...
E houve um dia
em que ousei desfrutar
da cascata, cristalinas águas apanhar;
porém foi bem breve
o meu raro prazer,
pois as tochas luziram
tive que correr!"

O coro das feiticeiras reivindica forte:
"Chega de exclusão, de xingamentos e de excomunhão!
Todo dia é dia de bruxa!
Queremos brincar sob o véu da chuva,
mesmo que a seus olhos pareçamos corujas!
Sob o Sol-rei sair em bandos ruidosos
e trôpegas bailar, sem em gafes pensar!"

Uma bruxa cinzenta pede agora a palavra,
ela já foi alegre,
mas agora é morta.
"Quando querem carinho,
não hesitam chamar
e nós, prestativas
nos apressamos a amar.
Juras de eterno amor
declamam sem pudor...
Mas é tudo ilusão!
Pois se avistam donzelas, lá se vão os galãs!
E nos deixam sozinhas,
sem respeito, esquecidas,
feito meias puídas.
Os corações feridos,
presas da fria dor!
A solidão quer vingar todas essas mazelas...
E há entre nós
quem trate de arquitetar
um plano perverso, porém exemplar
que possa aplacar
o que não quer passar.
Mas sempre há quem diga:
'Ora, que bruxa vil!
Veja quanta maldade!
Condenou sem piedade
um casal tão bonito!
União assim nunca se viu!
Pôs a doce menina
num repouso infinito
e confinou o marido
À espera, aflito!'"

E o coro das bruxas assanhado declama:
" Somos tão sedentas de amor, de afeto
quanto qualquer um,
rejeitamos o veto.
O coração busca amor, não importa o peito.
Da paixão, do afeto,
não abriremos mão.
E que venha a lei
o bispo, o Papa, o rei.
Não adianta proibir
é o amor que move o nosso ir."

Foi quando se ouviu um forte estrondo;
É que a bruxa-mãe quis pra si cada ouvido,
e com seu cajado interrompe o alarido.
Atenta ouvira a tudo calada
e sorvera em silêncio cada palavra.
Com seu discernimento aprendera a lição
e agora tinha pronto o mais doce sermão.

" Tendo ouvido a todas, no meu posto concentrada,
às muitas queixas ao vento lançadas...
Vejo que vivemos sempre a reclamar
e nada fizemos para afirmar
a todo o Universo como somos honradas.
Como podem saber de nossa grandeza
se em reclusão decidimos viver?
Que o nosso poder unamos agora,
a fim de que entendam,
da Vida somos Filhas.
Uma grande mágica gestemos, sem demora,
pra que grande e pequeno
possa compreender:
Somos Filhas do Cosmos,
comunhão é um dever!"

De fato surgiram muitos raios de luz,
de cada bruxinha, foi de onde saíram.
Foram transcendendo as fontes humanas
e num globo se unindo,
ganhando espaço.
E foi se expandindo, inundando o ar;
e foi se espalhando,
buscando cumprir
a tarefa excelsa
que a Assembleia exigiu.

Foi o sopro da noite
e a cadência do vento,
que viram o evento
que narro agora:

Afirmo que o gato não pôde fugir
do feitiço certeiro
que foi transgredir
as Leis da Natureza,
mas quanta beleza!
O gato é agora
mensageiro veloz,
de botas e colete, penas no chapéu,
elegante e fiel,
transformou-se em arauto
e se pôs a caminho.
Tem nas mãos pergaminho,
proclama a mensagem,
a verdade antiga
e agora sabida:
Que as Bruxas são seres com muito a dar!

O ratinho ligeiro foi todo contente
levar as boas novas a quem pôde ouvir.
O que ele pregava
em cada esquina?
Uma mensagem escrita em letras garrafais:
'Irmã Mulher, Irmão Homem,
por favor, não se engane!
A beleza é a ilusão
que o tempo devora, tolo é quem a perseguir!"

À causa das Bruxas, a águia que é livre,
também quis servir;
lançou seu crau-crau
soberano no ar.
Seu destino, saudar
esse grupo valente,
forte, competente.
Às Bruxas, do céu deu seu "Olá!"

E vendo que a nova o mundo ganhava,
a Assembleia das Bruxas pôde enfim terminar.
E foram tomando, cada uma o seu caminho,
Sabendo que tinham feito jus à existência.
Já não mais passivas frente ao desafio,
Guerreiras vibrantes ninguém viu igual.
Já não mais importava vencer ou perder,
a busca por honra as fez florescer.
E quando o Rei-Sol pôde enfim despertar,
viu que havia com Ele outras luzes a brilhar.
E aos quatro cantos se pôde notar
Bruxas iluminadas pela coragem de existir,
que se irmanavam na voz a repetir:
"O Dia da Bruxa acabou de raiar!
Vejam que o Rei-Sol vem nos coroar!
De hoje em diante, cabeças erguidas,
também temos nosso quinhão nesta vida!"










de como Cravo Valente salvou Rosa Juvenil- poema narrativo infantil




A linda Rosa Juvenil
vivia alegre a cantar
pela manhã, tranças ao ar
ia ao jardim,
ia regar e entre flores requebrar
mas eis que a feiticeira má
muito má, muito má
sentiu tamanha irritação
com toda aquela alegria
e pôs a Rosa para dormir
por anos que nunca chegavam ao fim.

E todo dia ia mal, muito mal, muito mal
faltava o canto a alegrar
gente, bicho, planta e ar

ao seu redor gente a tentar
a doce Rosa despertar
mas ninguém nunca conseguia
pôr fim àquela agonia
foi quando o Cravo Valente
decidiu a feiticeira enfrentar


E por ser ela muito má, muito má, muito má,
Cravo tratou de seu corpo fechar
rezou terço, acendeu vela,
levou benzido o patuá
e a feiticeira foi visitar
e foi disposto a persuadir
a feiticeira muito má
o seu feitiço desmanchar

mas a mata estava enfeitiçada
toda escura e enlameada
Cravo perdeu-se no caminho
ele corria, ele chorava
com a pele toda arranhada
já bem tarde achou a picada
que dava à casa da malvada
quando chegou, tudo vazio
nem vestígio da feiticeira
Cravo pôs pra esquentar a chaleira
e desabou numa cadeira
procurando descansar
pra feiticeira enfrentar


Quando acordou foi grande o susto
a sala estava repleta de vultos
eram quinze bruxas a observar
o frágil Cravo em seu reduto
e as bruxas rindo a mirar
o pobre Cravo a assustar
ele tentou sair, tentou correr
mas não havia o que fazer
as suas mãos foram atadas
por fios de teias empoeiradas
com as gargalhadas que ouviu
sentiu que estava por um fio
elas passaram a girar
as botas batiam sem parar

" Estou com fome, já estou a tremer!
e é este o cravo que irei comer!" gritou a prima da dona do lugar
"Espere! Vamos nos divertir!
ele não tem como fugir
tem na cozinha, deixei lá
enroladinhos a assar
que sua fome vão com certeza aplacar
vá pra cozinha, frágil presa
traga-nos já a bandeja
e que não tente escapar
pois será grande o nosso irar!",
advertiu a bruxa, a gargalhar


Os fios das mãos se desligaram
Cravo foi pra cozinha atordoado
nem conseguia respirar
bem grande era o seu penar
O Cravo viu que não podia
vencer o bando de feiticeiras
e pela porta dos fundos tentou sair
mas os enroladinhos trataram de o impedir
selaram a porta, travaram a saída
e Cravo teve que voltar
pra sala e ver no que ia dar

"Eu avisei, não ousasse tentar
esta cabana abandonar - tornou a anfitriã a falar
não temos tido visitas há anos
é nossa presa, só poderá sair
se for capaz de decifrar
os enigmas que estivemos a bolar
sente-se logo! já vai começar!
são três os nossos desafios
Reze, pois se um deles errar
jamais o iremos libertar!
será nosso servo, nosso escravo
e esquecerá que um dia foi Cravo!

" Os números que nas caveiras faço agora surgir
diga em que ordem devem ir"
58  205  99  65
e agora sabichão, qual será a solução?"

"Se não assunto bem, já vou me enganando - disse o Cravo
mas não sou bobo, já sei seu plano
não é preciso nas caveiras se enxerir!
em ordem alfabética elas devem ir!'

Muito bem, Cravo sabido!
cuidado, não vá se enganar!
o segundo enigma estou na bolar
não se anime que a sorte é matreira
e se ela foge, lá vem asneira
e aí você não tem como escapar
Cuidado! Uma bruxa faminta está a lhe observar!

São quinze bruxas,
quinze a fiar
mas eis à porta
outras vinte a entrar
cinco saíram
foram passear
das que ficaram
dez a cochilar
e destas, três foram caçar
sapos e rãs pra poções preparar
responda rápido, sem pensar
quantas continuaram a fiar?

Cravo matutou, não perdeu tempo
nem bem a feiticeira dizia
os versos a melodia,
em sua cuca os pensamentos corriam

"Eu não sei bem, porém me arrisco
a caminhar no labirinto
tenho pra mim, estou quase certo
que as quinze pararam de fiar
quando as amigas chegaram em seu lar
sei bem que são hospitaleiras
e café coaram pras parceiras
portanto, não há como errar
nenhuma bruxa quis mais fiar

"Seu nome não deveria se Valente

pois possui uma ágil mente
é a primeiras vez que vemos
alguém acertar nossos brilhantes desafios
se acertar o último deles
é justo que o libertemos
e também poderá pedir
o que quiser, nós iremos consentir"

e a bruxa foi dizendo o derradeiro desafio:
"O cubo que imagino em minha mente
possui negras faces, escuros rostinhos
para pintá-los, de quantas cores preciso
se os rostos andam em parzinhos?"

Cravo coçou a cabeça, pensou que estava frito
foi quando lembrou da aula de matemática
por sorte não a havia perdido
são  seis os rostinhos do seu cubo
andam em pares então só pode ser
que cada cor pinte duas faces
então são três, eu tenho pra mim, as cores que o cubo vão colorir!"

"Ora, ora, Cravo Valente
foste um bravo no batente!
vejo bem que tolo não é
então seja breve e diga o que quer!"

"desejo que diga, gentil senhora
o que fazer para acordar
Rosa Juvenil, negra faceira
minha mais cara e meiga amiga
que a senhora deixou adormecida"

"Só isso? Já vou dizer
nada me impede de atender
arrume alguém que valente seja
e que ele a beije na bochecha
Rosa cantando acordará
e todos felizes irão celebrar."

E foi assim que Cravo Valente
descobriu como acordar
a linda Rosa Juvenil
que a todos encantava com o seu girar.

a verdadeira história de pai francisco-poema narrativo infantil


                                         
- Cantam por aí que:
"Pai Francisco entrou na roda
Tocando seu violão
De lá vem seu delegado
E Pai Francisco foi pra prisão
Como ele vem todo requebrado,
parece um boneco desengonçado"

Mas não foi bem assim que a coisa toda aconteceu. A bem da sinceridade...
Pisou no terreiro, todo faceiro
depois de tomar banho de cheiro
Nego Chico, o tocador do lugar
os dedos ágeis a correr
nas rijas cordas do violão
e era lindo de ver como ele trazia
 o corpo elástico em frenético bailar
e do dedilhar fazia surgir
vibrantes fagulhas que iam cair certeiras
em femininos corações

Seu som que era mágico
tirou as mocinhas
 dos seus costumeiros bordados
diariamente criados
e as atraiu para o terreiro iluminado
por estrelas do céu cravejado
e as atraiu para o Chico
o tocador encantado

A zelosa cozinheira largou o mugunzá
lá se foi muito ligeira com o Chico dançar
a costureira deixou seus tecidos
esqueceu a máquina, esqueceu a linha
e da porta de casa, com os olhos a acompanhar
a festa que o Chico dera início, ao luar

Da costumeira janela
a velha comadre
deixou de ser sentinela
passou batom
ajeitou os cabelos
e foi requebrar sem mais rodeios
  
O cheiroso jantar
Que Ana estava a preparar
ficou, dali em diante esquecido no fogão
Ana foi para o quarto
foi trocar o vestidão
por um outro colorido,
por um outro mais rodado
e ousadamente decotado.
E assim, toda bonita
foi ao grupo se juntar

Inté vó Dida
sempre, sempre tão calada
o cachimbo a pitar
não teve como fugir
dos sons que a estavam a seduzir
e se lembrou dos tempos de mocinha
em que dançava umbigada

de suas cadeiras
os antigos passos da dança há muitos esquecidos
ela fez ressurgir
e tudo era ginga
e tudo era quizomba.

E todas formaram
uma roda animada
em torno do Chico
que alegre bailava.
Ele se contorcia
ele rodopiava
teve vez que saltava
teve vez que encolhia
sobre o corpo encurvado
só pra depois se abrir feito sol iluminado
os braços estendidos
o canto maneiro
a chamar para girar
os leves vestidos
as saias em flor
pés descalços no chão


Os homens indignados
de vergonha avermelhados
foram tirar as mulheres
da dança despropositada
mas se viram em aperto
recuaram avexados
pois não houve quem não fosse pelas mulheres ignorado

E deste modo, espantados
sentiram tolhido
o poder que há muito
sobre elas exerciam
correram ao delegado
pedindo providência
era grave a situação, pois que o moço encantado
despertava as mulheres, acendia paixões

O seu delegado não deu importância
"Que é que tem se as mulheres
ensaiem suas danças?"
foi dar uma espiada
assim sem vontade
mas chegando no terreiro
viu Chico pura labareda
que as mulheres enlouquecia
com o seu violão a tocar
e quase que cai de costas
o pobre do seu delegado
pois sua esposa, antes beata
agora qual cigana bailava
rosa vermelha entre os lábios
o pano da saia
seguro pelas mãos
na altura da cintura
as pernas a mostrar
todo mundo que quisesse via...

Ninguém imaginava que a respeitável senhora
era capaz de sacudir
os quadris daquele jeito
ela era toda alegria
as palmas das outras acendia...

E foi assim que Pai Francisco
Foi parar na prisão
o seu crime? despertar
as mulheres do sertão...

desejos


O pai tinha um jeito de fazer as coisas que o enervava. Em pleno século vinte e um, em que todos buscavam  fazer e ganhar mais em menos tempo, o velho persistia naqueles modos contemplativos de ser: mais ouvia do que falava, demorava-se em observar as cores e os cheiros do  prato durante as refeições; parava no meio da rua pra ver a criança no colo do jovem pai apressado, a caminho da creche; acariciava uma florzinha desigual no vaso de flores compradas na feira de domingo; e sempre ria  das brincadeiras dos gatos já adultos. Eram esses os eventos que o despertavam das conversas internas e para eles, tinha o mesmo comentário:
" Que bonito!
 Por não ter muita paciência com aquele jeito velho de ser, evitava ir vê-lo, apesar dos conselhos da mulher.
 "Vá ver seu pai", ela dizia, "nunca se sabe quanto tempo lhe resta"
Naquele dia ele foi. Não pela insistência da esposa, mas pelo desânimo que sentia. Estava cansado. 48 anos. E o que obtivera? Carreira, casa, respeito, uma companheira, amigos...menos um filho. Aquele antigo sonho, ele ainda não conseguira realizar. Por que ele, que já tinha problemas de fertilidade, fora amar alguém que também os tinha? Mistérios da vida que ele não saberia explicar. Só sabia que era com ela que queria envelhecer. Mas o desejo do filho insistia .
Ele e a mulher já haviam gastado um bom dinheiro e o tempo corria contra ela. Mais um ano e meio e não mais poderiam recorrer à inseminação artificial.  Determinada,  ela se submetera a exames, regimes, medicamentos. Por aqueles dias, a tensão  instalou-se entre o casal e agora ele estava ali, observando o pai na cozinha, que absorto, olhava a água que caía sobre a xícara que lavava na pia.
"Por que comigo? Por que não me concederam ao menos um, quando tantos nascem de pais sem a mínima condição de criá-los dignamente? Devemos continuar tentando? Ou desistimos dos médicos e partimos para a adoção?"
O Pai fechou a torneira, pôs a xícara delicadamente no escorredor de pratos e procurou os olhos do filho para dizer:
" Não lutes"
A testa do filho franziu. 
" Não entendo o que quer me dizer..."
" Observa teus pensamentos, tuas opções, tuas escolhas. Paira sobre tudo o que tens de passar. Aquieta-te e entenderás tudo. Só assim compreenderás a razão de ser das coisas e saberás então o que tens de fazer."- e o velho enxugou as mãos enrugadas num pano branco.

Aritmética
O professor já havia iniciado a aula e foi por isso que o  garoto entrou de mansinho, evitando os cumprimentos ruidosos que costumava trocar entre os amigos. Foi sentando numa carteira que sobrara no cantinho que era o seu preferido da sala: o fundão. Dali podia ver tudo e todos. Ali, se a aula estivesse monótona ,podia debruçar sobre a mochila sem que os professores notassem.  Era ali o melhor lugar pra saber quem ficou com quem, ouvir música pelo fone de ouvido estrategicamente escondido sob a camiseta ou simplesmente rir das bobagens ditas pelos amigos. Mas o fundão estava diferente naquele dia. Todos muitos quietos: a Maíra, a Hellen, o Daniel, o Luan, o Valter. Até o Porco, que era o mais elétrico da turma estava prestando atenção no que o professor dizia.  
" Você impediria um atacante, aquele apto a levar seu time de futebol à conquista do título, proibiria-o de jogar devido a cor de sua pele? Deixaria de apoiá-lo por causa de sua cor? Pois é isso o que fazem com os negros. São fortes, são guerreiros. Mas devido a  cor da pele são impedidos de vencer."
"Mas professor, a maioria dos craques de futebol são negros!" - disse Babi,  que mais uma vez não entendera o simbolismo da coisa toda, na  sua costumeira mania de discordar. Os professores mais democráticos da escola nos incentivavam a questionar, mas a  gente achava que isso era  maluquice  ou, na pior das hipóteses, suicídio. Quem se atreveria a expôr sua ignorância?


labirinto - conto


A lotação começa a se mover, mas sua partida não é nada tranquila. O veículo sai aos solavancos, o motorista parece não saber da dificuldade que é andar para trás numa van em movimento, dotada de um corredorzinho estreito. Olhos molhados de sono, Daniel, vem logo atrás do pai. Se atrapalha na catraca, pede desculpas à senhora perfumada ( ainda bem que não comera nada antes de sair, ele pensa) . Ela o encara, ressentida por ele  ter desfiado a meia fina dela, quando procurava  um pedaço de chão em que colocar o pé. Ele e o pai forçam a passagem em direção à porta do fundo do veículo. O jovem vai  de cabeça baixa, evitando novos olhares enfezados.
Faixas laranjas colorem as beiradas do céu daquela manhã, e ninguém parece notar. Há os que cochilam, há os que estão ocupados em olhar para a frente ou pela janela sem que nada vejam. A viagem é curta, o pai mora perto do local de trabalho. Desembrcam. O rapaz respira aliviado.
 A rua deserta ainda, pelo cedo do dia; só os passarinhos procurando comida aqui e ali. O rapaz conta cinco deles, ciscando o chão. Os bem-te-vis cantam das árvores e um beija-flor namora as frutas de uma banca 24 horas. Daniel se agrada das cores do bichinho:preto e azul escuro metálico. O homem não nota os pássaros, mas sente o silêncio do filho. Para que o garoto se anime, começa a contar as piadas que ouvira no dia anterior, contadas pelos colegas de ofício. Refere-se a cada um pelo apelido: o Porco, o Cheiroso, o Mineiro, o Orelha. Ao rapaz, parece-lhe que da profissão do pai, tudo o que lhe restava era camaradagem no serviço, uma seguradora. Ele não ousava indagar, mas desconfiava  da sinceridade  daquele riso, que lhe soava triste.
O Pai já tivera a sua oficina. Ia às casas das freguesas consertar máquinas de lavar, secadoras, tanquinhos, fogões. Tiveram até carro. Tempo bom aquele. Mas a clientela foi enxugando, pois as seguradoras passaram a oferecer de tudo, inclusive manutenção de eletrodomésticos. O Pai teve que trocar o carro pela bicicleta. Passou a sair todos os dias com sua caixa de ferramentas, gritando os seus serviços pelos bairros vizinhos. Porém, a inconstância dos ganhos- tinha semana em que o máximo que conseguia era trocar o motor de um tanquinho- e o jeito silencioso da Mãe, fizeram-no render-se aos novos tempos. Agora tinha salário fixo e carteira assinada, além de não precisar mais sair à caça de freguesia. Isso caberia aos agentes de seguros dali por diante. Aos domingos, para aumentar a renda, fazia uns consertos quando chamado.
- Que cara é essa, Filho? - pergunta o homem- Não tá gostando de vir comigo, aprender a minha profissão? Sei que não é bem o que você sonha, mas é melhor que nada, enquanto existir gente, vão precisar de quem saiba consertar as máquinas. Você terá como garantir o seu pão, o que não é pouca coisa.
O garoto olha para o pai, surpreso. Não era a primeira vez que acompanhava o pai no serviço, mas para ele tais momentos não passavam de uma inserção num dos muitos setores reservados aos adultos. Agora o pai vinha com aquela história,  a dele aprender sua profissão. " Não é bem o que você sonha." Mas qual era mesmo o seu sonho? Nunca planejara o futuro, já que não o ensinaram a fazer isso. A sua existência ainda não lhe pertencia, eram os adultos- de casa e da escola- quem a decidiam. Só decidia as cabulações de aula, as brincadeiras de rua,  de que menina se aproximar, de que galera participar. Podia escolher  jogos de videogame ou roupas e calçados, desde que  coubessem no orçamento da casa. Parecia-lhe que a única área em que podia exercer sua vontade era a escolar: fazer ou não fazer o trabalho de geografia? Prestar atenção ou não às explicações monótonas e incompreensiveis dos professores? Não, não, enganara-se; pensando bem, nem sobre esse setor podia legislar. Em se tratando das notas escolares, não tinha o menor controle;quando achava que sabia da matéria, levava um choque ao receber  o resultado das provas; quando tinha certeza que fora mal numa delas, porque chutara as respostas, era surpreendido por uma nota boa. Acostumara-se a deixar o futuro nas mãos do acaso, a viver o presente. "Na hora a gente vê", costumava dizer, porque não se sentia confiante para decidir o seu futuro. E assim, ia adiando o encontro com o seu amanhã; armara-se do discurso que ouvia desde de menino: estudar para ser alguém na vida. Quanto ao que estudar e o que ser, não tinha a menor idéia. Quando apertado por um amigo ou adulto, citava uma ou outra profissão que admirava ou que remunerava bem, mas que ignorava completamente.
 Daniel foi ouvindo seus pensamentos e ficando com raiva do pai e dos professores. Diziam que ele tinha que estudar para trabalhar, mas não o ajudavam a decidir sobre o que fazer. E vê-los reclamando do salário, das condições de trabalho e do transporte coletivo só o faziam temer ainda mais  a vida adulta. E agora vinha o pai falar em sonho. Que sonho? Como podia o Pai saber do  seu sonho se nem ele sabia? Garantir o pão...era só isso a vida? Vontade de mais, mas o quê? 
Pai e filho entram no prédio de uma grande seguradora. O garoto observa os homens: alguns pregam seus crachas de identificação nos bolsos das camisas. Outros estão no balcão, recebendo do chefe os pedidos do dia. Um ou outro confere as ferramentas na caixa. Dizem gracejos, riem, combinam o café na padaria da esquina. O pai  apresenta o filho aos amigos, que elogiam os poucos pelos do rosto do menino.
- Vem, Filho, vamos tomar café, você não comeu nada hoje e o pão de queijo da padaria da esquina é uma maravilha.
 Daniel acompanha o homem que é o seu pai. Vai pensativo. Não deseja a vida que o homem à sua frente leva, mas não consegue  apresentar uma alternativa. E vai, como quem não tem pra onde ir, nem pra onde voltar. Está numa encruzilhada cujos caminhos o paralisam.

das escolhas inconscientes - conto


Ele sonhava em ter um carro. Trabalhava numa fábrica de automóveis e via todo o processo de produção de um carro; a montagem do motor, da carroceria, da pintura, do estofamento. Cada carro pronto, cheirando a novo, que ele via ser levado ao pátio da fábrica e depois transferidos às grandes carretas,  a fim de serem expostos nas concessionárias de autos, era mais uma acha de lenha  a alimentar o fogo do desejo em seu coração.
Como só ele trabalhava em casa e tendo filhos para criar, começou a fazer horas extras, para ganhar mais. Chegava em casa tarde, as crianças já dormindo, tinham como sonhado o beijo noturno do pai. Por estar cansado, não tinha ânimo para conversar , tampouco abraçá-la. Comia rapidamente e ia dormir. A esposa reclamava a sua companhia, há quanto tempo não conversavam , brincavam, namoravam. E as crianças? Quando fora a última vez que assistira um desenho animado com o caçula ou saído para tomar um sorvete com as meninas? Alertava-o da falta que fazia às crianças. O homem retrucava às queixas da mulher. Que ela tivesse paciência por um pouco mais de tempo. Que pensasse no conforto que teriam.
Após alguns meses, ele chegou em casa com o carro dos seus sonhos. Dera uma boa entrada ( horas extras, férias, 13º) e parcelou o restante do valor do veículo em 36 suaves  prestações.
As crianças fizeram festa. Gritavam alegres enquanto corriam ao redor do carro, seguidas pelo cachorro, que, como não poderia deixar de ser, fez xixi numa das rodas traseiras ao primeiro descuido da família. Apesar da travessura, também participou da primeira vez que deram uma volta no quarteirão.
A mulher acreditou que novamente todos à mesa durante o jantar, as brincadeiras de pai e filhos antes de dormir, o namoro tarde da noite, os passeios aos domingos.
Mas não. O marido continuava a fazer horas extras, porque o carro reclamava cuidados. E aos domingos, dedicava-se ao carro - lavar, secar e encerá-lo pela manhã - aos amigos e à cerveja.. Quando ouvia da mulher a queixa já conhecida, argumentava cansaço ou falta de tempo.
Quando percebeu que pedia em vão pela companhia do marido, a mulher começou a planejar passeios dominicais com as crianças. Deixava pronto o almoço do marido. Para ela e as crianças, preparava sanduíches, bolos, tortas, sucos. Conheceram todos os parques públicos da cidade. Os meninos, levavam pipas, bola; as meninas, bonecas, gibis, brinquedos de casinha. Quando cansados dos brinquedos, rolavam na grama, subiam em árvores, caçavam besouros. A mãe lia sob a copa das árvores.
Foi num desses passeios, que mãe e filhos conheceram um homem-criança. Empinava pipas com os meninos; os pés descalços na grama fria. Fingia comer a comidinha que as pequenas preparavam em suas panelinhas e não se importava em vigiar o sono das bonecas. Sabia da vida dos autores dos livros que a mãe lia. E  passaram a se encontrar todos os domingos, sob as mesmas árvores.
Num domingo de sol, os filhos maiores perceberam que o amigo e a mãe pouco conversaram, embora os olhos de um postos no outro. Ao fim da tarde, não houve despedida, amigo, mulher e filhos seguiram pelo mesmo caminho.
Na manhã do mesmo dia, absorto com a limpeza do carro, o pai não dera pela falta do cachorro. E à noite, quando o telefone tocou na sala, ele não ouviu, já que a música que ouvia dentro do carro estava em alto volume.